Luccius,
As ruas que por onde andei nunca mais verão os mesmos passos que dei, nem os mesmos olhares que fitei, nem as coisas que vi, não escutarão os mesmos ruídos que ouvi, nem lembrarão dos gestos que fiz, nunca saberão o que pensei, nem ao menos saberão por que por elas andei.
Aquele armário no canto de meu quarto também não será mais o mesmo, pois as cartas que você escreveu e que nele foram escondidas, hoje eu rasguei.
De nada vale remoer o passado, de nada vale guardar um sentimento que não é mais sentido por dois, apenas por um.
Revirando mais o armário, encontrei uma foto sua. Seu sorriso era sincero e lindo, parecia até que foi tirada há poucos dias, mas tinha sido há tanto tempo que estava meio amarelada. Acho que era novembro de 2004, não lembro ao certo o dia, mas tenho certeza que foi em novembro.
Eu tinha 16 e você 18, éramos bem jovens. Tínhamos ido ao parque e eu estava com minha Polaroid. Você me chamava de careta por eu gostar de coisas velhas. Sim eu era e ainda sou, prova disso é este armário onde guardo todas as coisas que já passaram em minha vida, incluindo você.
Talvez você se pergunte: “Como será que ela está?” e eu agora te respondo: “Vou bem, obrigada!”. Apenas isso que você deve saber de mim agora, eu estou bem, não se preocupe, se é que você se preocupa.
Sabe, eu sofri bastante com a separação, mas disso você deve saber. Como eu era muito nova e como você foi o meu primeiro amor, era normal eu sofrer assim e você não era mais o mesmo quando me deixou. Parecia que eu era um tipo de fuga sua enquanto estávamos juntos. Parecia um esforço seu estar comigo.
Mas agora não me preocupo mais, na verdade isso é só um desabafo e não quero nenhuma resposta sua para esta carta, nem ao menos sei por que a escrevi.
P.S.: “Eu precisava dizer isso a você. Talvez eu estivesse errada. Eu não te amava, sinto muito.”
De quem está muito bem sem você,
Nancy.